Entendendo o Processo Terapêutico: Sofrimento vs. Imediatismo



A chave para o sucesso na terapia pode estar na distinção entre o sofrimento (a dor emocional real da paciente) e o imediatismo (a necessidade urgente de alívio e controle). 

O Cenário da Paciente
A paciente apresenta um quadro complexo:
  • Perturbação interna: Sente-se paralisada por seus próprios pensamentos.
  • Controle ilusório: Afirma ter controle, mas age de forma indiretamente paralisada.
  • Exigência e Frustração: Um alto nível de auto exigência gera grande frustração e autos sabotagem.
  • Angústia e Ansiedade: Sente angústia sobre o que fazer e ansiedade pelo tempo "perdido" com sua condição.
  • Isolamento: Desentendimentos com entes queridos, pois ninguém parece entender sua dor "imutável".
  • Busca por Compreensão Total: Acredita que todos, inclusive o terapeuta, devem compreendê-la imediatamente e incondicionalmente.
O Comportamento Imediatista na Terapia
A paciente demonstra uma forte necessidade de respostas e alívio imediatos, dentro e fora da sessão:
  • Exigência de Direção: Tenta orientar o terapeuta sobre como a sessão deve ser conduzida.
  • Fala Exacerbada: Comunica-se excessivamente, sem a devida reflexão ou "cadência" consciente.
  • Risco ao Processo: Embora a fala inicial seja boa, a falta de acesso à consciência (reflexão) adia a melhora significativa. Esse padrão pode levar a um processo terapêutico muito longo, de anos, se o profissional não souber intervir nos momentos-chave.
A Conexão com as Fases do Luto (Kübler-Ross)
O comportamento da paciente pode ser compreendido através das fases do luto, conforme a obra "Sobre a morte e o morrer", de Elisabeth Kübler-Ross: 
  • Neste momento, a paciente está predominantemente nas fases de Negação e Raiva.
  • Essas fases, embora naturais para lidar com perdas ou a morte, também servem para entender a resistência do paciente ao processo terapêutico e à aceitação de sua condição.
  • O trabalho do terapeuta é ajudar a paciente a avançar por essas fases (Negação, Raiva, Negociação, Depressão e, finalmente, Aceitação) para que ocorra a remissão ou melhora significativa. 


Segundo a autora: 

Elisabeth Kübler-Ross, uma psiquiatra americana nascida na Suíça, foi pioneira no conceito de oferecer aconselhamento psicológico a pessoas em fase terminal. Em seu primeiro livro, Sobre a Morte e o Morrer (publicado em 1969), ela descreveu cinco estágios que acreditava serem vivenciados por aqueles próximos da morte: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Ela também sugeriu que a morte fosse considerada uma fase normal da vida e ofereceu estratégias para o tratamento de pacientes e suas famílias durante esses estágios. O tema da morte era evitado por muitos médicos, e o livro rapidamente se tornou um texto padrão para profissionais que trabalham com pacientes terminais. Posteriormente, os cuidados paliativos foram estabelecidos como uma alternativa ao tratamento hospitalar para pacientes terminais, e houve uma maior ênfase no aconselhamento para famílias de pacientes em fase terminal.

Negação: "Isto não pode estar a acontecer."

É a primeira fase do luto e se manifesta como uma defesa psíquica, onde a pessoa se nega a acreditar no que ocorreu e de alguma forma, tenta não entrar em contato com a realidade e prefere não falar sobre o assunto. É uma fase de dor intensa e dificuldade para lidar com a perspectiva da ausência.

Raiva: "Por que eu? Não é justo."

A segunda fase se caracteriza pelo sentimento de revolta com o mundo e todos, onde o indivíduo se sente injustiçado e não se conforma pelo o que está passando. Ocorre a conexão com a realidade e a percepção que não é possível reverter a situação.

Negociação: "Deixe-me viver apenas até ver os meus filhos crescerem."

Na terceira fase, a pessoa negocia consigo mesma. É uma tentativa de aliviar a dor e ponderar possíveis soluções para sair daquela circunstância. Normalmente, relaciona-se a uma conjuntura religiosa e promessas a um Deus.

Depressão: "Estou tão triste. Por que devo me preocupar com qualquer coisa?"

Nesta quarta fase ocorre a reclusão da pessoa para o seu mundo interno, onde ela passa a se isolar e a se considerar impotente frente ao ocorrido. Geralmente, é a fase mais duradoura do processo do luto, caracterizada por um sofrimento intenso.

Aceitação: "Vai tudo ficar bem.", "Eu não consigo lutar contra isto, é melhor preparar-me."

 Quinta é a última fase do luto, o indivíduo não se sente mais desesperado e já consegue enxergar a realidade como ela é. Ocorre assim, a assimilação e aceitação por completo da perda ou morte de forma consciente.

Portanto, o luto é um processo necessário e crucial para preencher o vazio deixado por qualquer perda significativa, fazendo com que a vida de quem o passou, prossiga. No caso da paciente, a mudança de pensamento deve ser entendido como um luto também, o desconhecido sobre o futuro impede de avançarmos, mesmo que atualmente esteja em sofrimento, então pensa-se em não acumular mais dores. Sem dúvida um mecanismo de defesa. Indiretamente ou não, o fato é que todos que procuram psicoterapia esteja em algum estágio de Elisabeth Kübler-Ross. Ao menos o profissional tem que entender em que etapa está seu paciente e assim lhe dar o devido acolhimento e a orientação devida.

Para entender melhor a obra de Elisabeth Kübler-Ross, clique abaixo:   

https://cursosextensao.usp.br/pluginfile.php/48564/mod_resource/content/1/Texto%20base.pdf


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