O Ciclo Invisível: Por que Repetimos Sofrimentos da Infância Sem Perceber?
Imagine alguém que, em uma conversa entre amigos, conta diversas histórias sobre como é enganado pelas pessoas ou como tem "azar" na vida. Essa pessoa narra situações com muitos detalhes e drama, como o caso de uma vizinha que nunca paga as roupas que comprou ou um irmão que lhe tira dinheiro. Ao ouvir esses relatos, os amigos geralmente reagem com impaciência, chamando a pessoa de "boba", "ingênua" ou "perdida". O que muitos não percebem é que, por trás desse comportamento, existe uma necessidade emocional profunda: por mais estranho que pareça, essa pessoa busca ouvir esses adjetivos negativos porque eles confirmam uma visão de mundo que ela carrega desde criança.
Essa dinâmica tem raízes na história familiar. Imagine uma criança que cresceu em um ambiente de brigas constantes entre os pais, onde a mãe, sobrecarregada pelas tarefas e pelo conflito doméstico, não conseguia dar atenção e carinho. Para justificar essa ausência ou em momentos de estresse, essa mãe repetia constantemente para a filha que ela era "boba", que não tinha noção da realidade e que sempre seria enganada pelos outros. Com o tempo, essas frases deixaram de ser apenas críticas externas e se transformaram em crenças internas muito fortes, moldando a forma como essa criança, agora adulta, enxerga a si mesma e ao mundo.
Na psicologia, entendemos que frases marcantes ouvidas na infância — como "você nasceu burro" ou "você não tem capacidade" — funcionam como sementes que crescem e se tornam verdades invisíveis na mente adulta. Quando essa pessoa cresce, ela passa a se "auto sabotar" inconscientemente, envolvendo-se em situações de prejuízo ou mantendo por perto pessoas que a exploram, apenas para reviver aquele sentimento familiar da infância. Ela chama isso de "falta de sorte" ou "infortúnio", mas, na verdade, está apenas seguindo um roteiro antigo. Ela conta suas tragédias aos outros para que eles confirmem, através de insultos, aquilo que a mãe dizia no passado, mantendo vivo um vínculo emocional que, embora doloroso, é a única forma de conexão que ela aprendeu a conhecer.
É nesse cenário que a sessão de psicoterapia se torna essencial, pois ela oferece um espaço seguro para que a pessoa consiga, pela primeira vez, enxergar esse ciclo por fora. O psicólogo ajuda o paciente a identificar que esse "azar" constante não é um destino inevitável, mas sim o reflexo de feridas antigas que ainda não cicatrizaram. No consultório, as frases dolorosas ouvidas na infância são questionadas e desconstruídas, permitindo que o adulto entenda que a opinião negativa de seus pais não define quem ele é de verdade. Ao tratar essas causas profundas, a pessoa deixa de buscar a validação do seu sofrimento no olhar dos outros e passa a ter força para estabelecer limites, dizer "não" e construir uma história onde ela não é mais a vítima, mas sim a protagonista de sua própria vida.

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