Além do Laudo: A Cirurgia Bariátrica e a Busca Desesperada pela Dopamina Perdida

 



A busca pela cirurgia bariátrica — um procedimento invasivo que reduz o tamanho do estômago para tratar a obesidade grave — chega ao consultório do psicólogo, muitas vezes, como uma transação comercial urgente. O paciente, exausto de tentativas fracassadas de emagrecimento e sufocado por uma autoestima fragmentada, vê no laudo um passaporte para a felicidade. 

No entanto, o papel do psicólogo transcende a burocracia exigida pelos planos de saúde. Através da anamnese e, em muitos casos, de testes de personalidade que validam as percepções clínicas, o profissional tenta enxergar o que a pressa do paciente tenta esconder: a cirurgia altera o corpo, mas não reconfigura, por si só, a mente que busca na comida a sua única fonte de prazer e sobrevivência emocional. O cerne da questão reside na neurobiologia da recompensa e na história afetiva do indivíduo.

 Para muitos, o excesso alimentar é o mecanismo que libera doses maciças de dopamina, gerando uma sensação passageira de bem-estar que mascara um "desbotamento emocional" ou uma depressão profunda. Quando o psicólogo investiga a origem desse comportamento, muitas vezes encontra uma criança que aprendeu que estar acima do peso era sinônimo de ser amada ou aceita dentro de um padrão familiar específico. Nesses casos, a comida não é o problema, mas o sintoma de uma falta simbólica.

 Se a felicidade plena foi depositada no prato ao longo de uma vida inteira, o que acontecerá quando o estômago não puder mais comportar esse volume? Onde o paciente buscará sua dopamina diária quando o refúgio do excesso lhe for retirado pelo bisturi? Portanto, a avaliação para a bariátrica deve ser um processo de conscientização e não apenas uma etapa protocolar. É fundamental que o paciente entenda que a cirurgia é um meio, mas a origem da sua compulsão pode estar em raízes profundas que o corte cirúrgico não alcança. 

Sem uma reflexão didática sobre como substituir os mecanismos de recompensa e como lidar com a imagem corporal — que muitas vezes busca corresponder a ideais fictícios de perfeição —, o pós-operatório pode se tornar um terreno fértil para novas adições ou crises existenciais. O psicólogo não entrega apenas um laudo; ele oferece a oportunidade de o sujeito compreender que a verdadeira transformação começa na descoberta de novas formas de nutrir a alma, para que a perda de peso não resulte em um vazio emocional ainda maior


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