O Laudo como Ponte, não como Muro: O Cuidado com a Avaliação Escolar





Um laudo neuropsicológico é uma ferramenta poderosa, mas, se mal utilizado, pode acabar prejudicando o aluno em vez de ajudá-lo. Trata-se de um processo de avaliação complexo e de alto custo, que raramente é coberto por planos de saúde. Infelizmente, alguns profissionais focam excessivamente em testes de inteligência e números, deixando de lado as entrevistas profundas com a família e os testes que avaliam o lado emocional. Essa falha é grave, pois o que parece ser uma dificuldade de aprendizado ou um "atraso" mental pode ser, na verdade, o reflexo de um bloqueio emocional e não um problema biológico no cérebro.

Originalmente, essas avaliações servem para ajudar médicos a entenderem perdas de função cerebral após acidentes ou doenças. No entanto, o que vemos hoje é um aumento de escolas que exigem laudos para crianças inquietas, desatentas ou que desafiam as regras. Há um lado perverso nessa pressão: muitas vezes, o laudo é usado pela instituição de ensino como uma "autorização" para desistir do aluno, transferindo toda a responsabilidade do aprendizado para médicos e psicólogos. É nesse ponto que o profissional de psicologia precisa ter sensibilidade extrema, garantindo que o documento sirva para abrir caminhos de inclusão, e não para rotular ou excluir a criança do ambiente escolar.

É fundamental compreender que o comportamento de um jovem está profundamente ligado à dinâmica de sua casa. Falhas na disciplina, o acesso fácil a prazeres imediatos (como o uso excessivo de telas) e a ausência de um acompanhamento presencial dos pais podem gerar comportamentos problemáticos que mimetizam transtornos mentais. Muitas vezes, a família resiste a essa ideia, preferindo acreditar que o problema está apenas na criança, e não na forma como todos convivem. Sem que os pais aceitem mudar sua própria conduta e se tornem parceiros no processo, o laudo torna-se apenas um papel sem efeito prático.

A verdadeira solução após a entrega de um laudo não termina no diagnóstico, mas começa nele. O caminho para a recuperação escolar e o bem-estar do aluno exige uma parceria sólida entre família, escola e profissionais de saúde. Isso inclui um acompanhamento psicológico de qualidade, treinos específicos para as funções cerebrais que precisam de estímulo e um suporte pedagógico que respeite o ritmo da criança. O laudo deve ser o primeiro passo para uma rede de apoio que ajude o indivíduo a florescer, lembrando sempre que nenhuma pontuação em um teste é capaz de definir toda a capacidade e o futuro de um ser humano.

Para garantir que o diagnóstico não se torne um rótulo de exclusão, os pais precisam agir como pontes entre a saúde e a educação. Aqui está um guia prático sobre como conduzir esse diálogo com a escola:

  • Marque uma Reunião Específica: Não entregue o laudo na recepção ou por e-mail apenas. Peça uma reunião com a coordenação e os professores para discutir o documento. O objetivo é transformar termos técnicos em ações práticas dentro da sala de aula.

  • Foque nas Potencialidades, não apenas nas Dificuldades: Ao apresentar o laudo, destaque o que a criança consegue fazer e como ela aprende melhor (se é mais visual, se precisa de instruções curtas, etc.). Isso ajuda o professor a enxergar o aluno além do problema.

  • Solicite Adaptações Pedagógicas (PEI): Verifique se a escola pode elaborar um Plano de Ensino Individualizado (PEI). Isso pode incluir tempo extra para provas, mudança de lugar na sala ou flexibilidade nas tarefas, garantindo o direito de aprender no próprio ritmo.

  • Estabeleça um Canal de Comunicação Direto: Sugira um "diário de bordo" ou reuniões mensais curtas para alinhar se as estratégias do laudo estão funcionando. A escola precisa saber o que está sendo feito na terapia, e o terapeuta precisa saber como a criança se comporta na escola.

  • Monitore a Postura da Escola: Esteja atento se a escola começar a usar o laudo como "desculpa" para não ensinar. Frases como "ele não aprende por causa do diagnóstico" são sinais de alerta. O laudo serve para orientar o ensino, nunca para justificá-lo como impossível.

  • Envolva o Psicólogo na Mediação: Se houver resistência da escola ou dificuldade de compreensão, peça ao psicólogo que fez a avaliação para participar de uma reunião ou enviar uma nota técnica explicativa. O olhar profissional ajuda a quebrar barreiras institucionais.

Lembre-se: o laudo é uma ferramenta de proteção. Ele serve para que a escola entenda que aquela criança precisa de uma "escada" diferente para alcançar o conhecimento, e é dever da instituição fornecer os degraus necessários.



















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