Para Além dos Conselhos: A Escuta que Salva sem Julgar


Ouvir alguém falar sobre o desejo de tirar a própria vida ou relatar atos que a sociedade considera monstruosos, como o abandono de um filho, desperta em nós um impulso imediato de dar conselhos, pregar lições de moral ou oferecer "receitas de superação". Vemos isso em filas de supermercado ou em comentários de internet: pessoas tentando convencer as outras de que a vida é bela ou de que certas condutas são imperdoáveis. No entanto, o que serve para um não necessariamente serve para o outro. Dar conselhos baseados na nossa própria história de vida é, muitas vezes, tentar medir a dor alheia com a nossa própria régua, esquecendo que cada ser humano é uma construção única de experiências, emoções e contextos sociais. Não somos uma "receita de bolo" onde basta somar os mesmos ingredientes para obter o mesmo resultado.

No consultório, o papel do psicólogo é justamente o oposto do "conselheiro de fila". O profissional atua como uma "caixa vazia", isentando-se de suas próprias convicções morais e éticas para conseguir enxergar o mundo através dos olhos do paciente. Se um adolescente fala sobre a vontade de desistir ou se uma jovem lida com uma gravidez indesejada, o psicólogo não deve impor o que ele acredita ser o correto, mas sim buscar o que aquilo significa para quem está vivendo a situação. Quando apenas repetimos o que a sociedade espera, nunca acessamos a verdade daquela pessoa. É preciso ter um olhar cuidadoso para entender que ter um aparelho reprodutor não transforma automaticamente alguém em mãe, e que a pressão social para ser o que não se sente pode ser a raiz de um sofrimento insuportável.

O trabalho clínico é uma busca pelo que é significante para o sujeito, um exercício de ver sob a bandeira do outro. Ao mesmo tempo, o terapeuta ajuda o paciente a entender as consequências de suas escolhas dentro de uma sociedade que muitas vezes investe na alienação e cobra um preço alto por quem decide viver fora dos padrões. Viver em sociedade envolve perdas e ganhos, e a angústia que sentimos por natureza não se resolve com frases prontas de autoajuda ou histórias de superação alheias. É necessário um diálogo sincero que permita ao indivíduo descobrir sua própria forma de lidar com a existência, sem ser esmagado pelo peso do julgamento alheio.

A psicoterapia é esse espaço único de liberdade onde a fala não é silenciada pelo "certo" ou pelo "errado" coletivo. É o lugar onde se pode olhar para o abismo sem ser empurrado por conselhos fúteis, permitindo que a própria pessoa encontre os seus motivos para continuar ou para ressignificar suas escolhas. Procurar ajuda profissional é entender que a nossa dor merece mais do que um palpite; ela merece uma escuta técnica, ética e, acima de tudo, profundamente humana, capaz de acolher o que há de mais difícil em nós sem nos transformar em monstros ou coitados.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

Entender a diferença entre o apoio de um amigo e a intervenção de um psicólogo é fundamental para saber quando o "desabafo" já não é mais suficiente e o caso exige um cuidado técnico. Embora ambos tenham valor, eles operam em níveis completamente diferentes de profundidade e segurança.

O desabafo com um amigo é baseado na reciprocidade e na afetividade. É uma conversa onde existe uma troca: você fala, o amigo escuta e, geralmente, ele responde baseado nas crenças, valores e experiências dele. O amigo quer o seu bem, e por isso ele tende a dar conselhos, dizer o que ele faria no seu lugar ou tentar te animar com frases de otimismo. No entanto, por mais bem-intencionado que seja, o amigo não é neutro. Ele tem medo de te magoar, pode se sentir sobrecarregado com o peso da sua dor ou, sem querer, pode acabar reforçando comportamentos que não são saudáveis para você. Além disso, em momentos de crise profunda, um amigo pode se sentir impotente, o que pode gerar um silêncio desconfortável ou conselhos fúteis que aumentam a sensação de solidão.

Já a escuta clínica do psicólogo é uma ferramenta técnica e ética. O psicólogo não está ali para ser seu amigo, mas para ser um profissional que utiliza o conhecimento científico para mediar o seu autoconhecimento. Diferente do amigo, o psicólogo não dá conselhos e não usa a própria vida como régua para a sua. Ele pratica a escuta ativa e a suspensão do julgamento, o que significa que ele consegue ouvir confissões difíceis — como o desejo de suicídio ou arrependimentos profundos — sem se assustar ou tentar te "corrigir" moralmente. O psicólogo identifica padrões de repetição, gatilhos emocionais e mecanismos de defesa que você nem percebe que usa.

Em situações de crise, essa diferença é vital. Enquanto o desabafo com um amigo pode trazer um alívio momentâneo (como um analgésico), a psicoterapia trabalha na causa da dor (como uma cirurgia ou tratamento profundo). O psicólogo possui o treinamento necessário para manejar o risco, estabelecer protocolos de segurança e ajudar você a construir recursos internos para enfrentar a tempestade, sem que você precise se preocupar em "poupar" o profissional do peso das suas palavras. A terapia é o único lugar onde o foco é 100% você, garantindo um sigilo que protege a sua história e uma técnica que visa a sua autonomia, para que você não dependa de conselhos alheios para caminhar.

Comentários

Postagens mais visitadas