O Divã não é Depósito: O Papel dos Pais na Psicoterapia Infantil
Para que qualquer psicoterapia funcione, o ingrediente principal é o interesse de quem senta na cadeira do paciente. Não existe tratamento eficaz feito à força ou apenas para cumprir uma cobrança externa; sem o desejo de participar, o processo perde o sentido, o investimento é desperdiçado e o abandono se torna inevitável. Quando falamos de crianças e adolescentes, o desafio é ainda maior. Embora os pais sejam os responsáveis por buscar ajuda, a criança precisa entender — dentro do que sua idade permite — o que está acontecendo e sentir-se convidada a experimentar esse espaço. A terapia não deve ser um castigo, mas uma jornada de descoberta.
Muitas vezes, os pais chegam ao consultório sobrecarregados, trazendo pilhas de laudos e diagnósticos acumulados ao longo dos anos, esperando que o psicólogo decifre aquele "enigma" com um simples olhar, como quem lê um raio-x. No entanto, na psicologia, trabalhamos com o conceito da "tábula rasa": recebemos a criança como uma folha em branco. Isso significa que não a rotulamos pelo que está escrito no papel ou pelo que os pais afirmam; quem realmente apresenta sua história e seus sentimentos é a própria criança durante as sessões. Ali, o profissional deixa de lado seus próprios julgamentos e valores para ouvir como aquele pequeno ser constrói o seu mundo, respeitando os significados únicos que ele dá a cada emoção.
Trabalhar com o público infantil é um desafio que envolve toda a estrutura familiar. Muitas vezes, a melhora de uma criança depende diretamente de como os pais organizam a rotina, aplicam a disciplina e oferecem afeto. Infelizmente, vivemos em uma época de "terceirização" da educação, onde se espera que a escola, a babá ou os avós resolvam questões que pertencem ao núcleo central da família. Os pais precisam ser parceiros do psicólogo, dando continuidade ao que é trabalhado em sessão e mantendo os combinados no dia a dia. A terapia é uma parceria: o profissional orienta, mas são os pais que exercem a função de modelos para os filhos.
Essa função de modelo é crucial porque a criança aprende, acima de tudo, pela imitação. Dos 3 aos 12 anos, ela observa e copia o comportamento dos pais para construir sua própria identidade. Se essa base não é bem estabelecida na infância, a adolescência — fase em que o jovem naturalmente busca referências fora de casa — pode se tornar um período de caos, rebeldia e falta de limites, pois não houve uma raiz sólida onde ele pudesse se apoiar. Mesmo em casos onde existem questões biológicas ou orgânicas que exigem medicamentos, a presença educativa dos pais continua sendo insubstituível.
É por isso que muitos psicólogos optam por não atender crianças: eles percebem que, frequentemente, a dificuldade maior não está no comportamento do filho, mas na resistência dos pais em mudar suas próprias atitudes. Os responsáveis serão sempre coautores do desenvolvimento de seus filhos, especialmente em tempos tão inconstantes como os atuais. Recuperar esse posto de autoridade amorosa e presença ativa é essencial para que nossas crianças deixem de ser "pequenos tiranos" ou "vítimas passivas" e encontrem um caminho saudável para a vida adulta, contando sempre com o suporte de profissionais que ajudem a clarear esse caminho.
A importância da psicoterapia, portanto, vai muito além de "consertar" um comportamento; ela oferece as ferramentas para que a família possa reconstruir pontes que o tempo ou os conflitos desgastaram. Em um mundo que exige respostas rápidas, o espaço terapêutico é o único que permite a pausa necessária para entender as causas reais de uma angústia, permitindo que a criança cresça com mais autoconhecimento e os pais com mais segurança em sua função. Investir nesse processo é garantir que o desenvolvimento emocional não seja deixado ao acaso, mas mediado por uma escuta técnica e acolhedora que transforma o sofrimento em aprendizado e a confusão em clareza.


Comentários
Postar um comentário