O Perigo dos Rótulos: Quando o Laudo Apaga a História de Vida



Certa vez, fui consultado para dar um segundo parecer sobre a avaliação neuropsicológica de um adolescente que vivia em um abrigo. O documento apontava um declínio cognitivo grave e um comportamento extremamente agressivo. No entanto, ao analisar o histórico daquele jovem, percebi que os números dos testes não contavam a história real. Ele vinha de um ambiente de extrema violência e falta de estímulos, onde as ruas eram seu único refúgio. No abrigo, em vez de encontrar acolhimento, ele foi recebido por profissionais rígidos que não compreendiam sua dor. Sem saber lidar com sua revolta, o sistema optou por medicá-lo e rotulá-lo, usando um laudo técnico para justificar o afastamento de qualquer responsabilidade sobre o seu desenvolvimento.

O grande erro técnico nesse caso começou na escolha das ferramentas. Utilizaram um teste de inteligência complexo, voltado para jovens com escolaridade em dia, em um adolescente que sequer era alfabetizado. É óbvio que o resultado seria baixo, mas isso não significava uma deficiência intelectual nata, e sim o reflexo de uma vida sem oportunidades. Uma avaliação neuropsicológica séria exige muito mais do que testes; ela precisa de uma escuta clínica refinada, que leva anos para ser desenvolvida, e de uma análise profunda sobre como o ambiente moldou aquela pessoa. Infelizmente, o que vemos hoje é uma banalização desses documentos, com pessoas buscando resultados imediatos e laudos "expressos" que servem apenas para carimbar diagnósticos e silenciar comportamentos difíceis.

Essa pressa em diagnosticar gera consequências desastrosas, especialmente no ambiente escolar. Muitas vezes, um laudo de "problema cognitivo" serve como uma autorização silenciosa para que os educadores desistam da criança, acreditando que ela não tem capacidade de aprender. O psicólogo competente deve atuar como um mediador, impedindo que o diagnóstico se torne uma sentença de exclusão. Seja em casos de abrigos ou até em avaliações para cirurgias delicadas, como a bariátrica, o profissional precisa investigar os gatilhos emocionais e a história por trás dos sintomas. Sem essa sensibilidade, o psicólogo deixa de ser um agente de saúde e passa a ser apenas um burocrata que valida injustiças.

Fica o alerta sobre a responsabilidade ética da nossa profissão. Não podemos permitir que avaliações superficiais definam o destino de um ser humano, ignorando o contexto social e histórico em que ele está inserido. Um laudo sem alma e sem estudo de caso é um documento vazio que condena o futuro de quem já sofreu demais. Felizmente, ainda existem muitos colegas que lutam por uma psicologia mais humana e honesta, que não aceita respostas prontas e busca verdadeiramente transformar a vida de seus pacientes através do cuidado real e do conhecimento profundo.

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