A Máscara da Superação: O que é Seu e o que é do Mundo?


É muito comum ouvirmos histórias inspiradoras de pessoas que venceram grandes desafios e conquistaram seu "lugar ao sol". Socialmente, essas narrativas são extremamente valorizadas; quem ouve se comove e quem conta sente o ego confortado pela admiração alheia. Muitas vezes, transformamos essas vitórias em bandeiras que hasteamos para mostrar ao mundo que estamos emocionalmente bem. Usamos a superação como uma armadura para guiar nossos passos, mas nem sempre paramos para questionar se essa força é genuína ou se é apenas uma resposta a uma cobrança invisível da sociedade. Vivemos em um mundo que não tolera bem as derrotas; quem não consegue "dar a volta por cima" rapidamente é visto com pena ou preconceito, o que nos empurra a usar a superação como mais uma máscara de sobrevivência para proteger um ego que, na verdade, está fragilizado.

Essa "persona" do vencedor torna-se uma necessidade porque confessar que não conseguimos lidar com as adversidades nos expõe a uma debilidade que o meio social não costuma acolher. No início de um processo de psicoterapia, é natural que o paciente ainda não esteja disposto a abrir mão dessa máscara, pois sente que há muito em jogo, como o respeito e a aceitação dos outros. No entanto, é no decorrer das sessões que a pessoa começa a lidar com uma verdade libertadora: muitas vezes, aquilo que chamamos de superação ainda não foi totalmente processado por dentro. É nesse momento que o paciente deixa de lado o que "precisa ser demonstrado" socialmente para assumir o controle real de sua história por meio da autodescoberta.

A vida em sociedade nos invade constantemente com padrões, pensamentos e exigências que nem sempre são saudáveis. Como não existe um filtro externo automático para tudo o que recebemos do mundo, essa tarefa acaba sendo nossa, mas nem sempre esse filtro funciona como deveria. É na psicoterapia que esse processo de filtragem ganha força. O psicólogo atua como um facilitador, ajudando a pessoa a identificar o que realmente pertence ao seu desejo e o que foi imposto pelo meio em que vive. O objetivo final é que o próprio indivíduo consiga distinguir o que lhe serve e o que deve ser descartado, conquistando uma qualidade de vida baseada na verdade sobre si mesmo, e não na necessidade de manter aparências. Experimentar a psicoterapia é aceitar o desafio de olhar para as próprias fraquezas para, enfim, construir uma força que seja real e não apenas uma máscara.

Para saber se a pressão por ser resiliente e "superar tudo" está se tornando uma máscara pesada demais, é preciso observar se a sua energia está sendo gasta mais na manutenção da aparência do que na resolução real dos seus problemas. Quando a superação deixa de ser um processo interno de cura e passa a ser uma obrigação social, começamos a sentir um esgotamento profundo, uma sensação de vazio mesmo após grandes conquistas e uma irritabilidade constante diante de pequenas falhas. Se você sente que não tem permissão para sofrer, para descansar ou para admitir que "hoje não está tudo bem", você está vivendo sob o peso de uma armadura que, em vez de proteger, está sufocando sua essência.

É nesse cenário que a busca por psicoterapia se torna fundamental. Muitas pessoas hesitam em procurar ajuda por acreditarem que isso confirmaria o fracasso que tanto tentam esconder por trás da máscara de superação. No entanto, a verdade é exatamente o oposto: procurar um psicólogo é um ato de extrema coragem e inteligência emocional. É o momento em que você decide parar de performar para os outros e começa a cuidar de si mesmo. No consultório, você encontra um ambiente seguro e livre de julgamentos, onde não é preciso ser o "vencedor" o tempo todo. A terapia oferece o espaço necessário para que você possa retirar essa armadura, respirar fundo e entender que a sua vulnerabilidade não é uma fraqueza, mas o ponto de partida para uma força muito mais real e duradoura.

Reconhecer que o filtro entre você e as exigências do mundo não está funcionando bem é o primeiro passo para uma vida com mais qualidade. A psicoterapia atua como essa mediação, ajudando você a processar o que foi apenas "engolido" pela necessidade de sobreviver socialmente. Se você sente que está cansado de carregar o peso de ser sempre forte, esse é o sinal mais claro de que é hora de investir no seu autoconhecimento. Permitir-se ser ajudado por um profissional competente é a maior superação que alguém pode realizar, pois é a superação do próprio orgulho em favor da saúde mental e da paz interior.

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Entender como funciona o início do processo pode diminuir a ansiedade e transformar o "desconhecido" em algo acolhedor. Aqui está um passo a passo simples de como costuma ser esse primeiro contato e a importância de cada etapa:

  • A Escolha e o Primeiro Contato: O primeiro passo geralmente é uma mensagem ou ligação para tirar dúvidas básicas, como horários disponíveis, valor das sessões e a modalidade (presencial ou online). Esse é o momento de sentir se houve uma "identificação" inicial com a forma como o profissional atende.

  • A Primeira Sessão (Entrevista Inicial): Diferente do que muitos pensam, você não precisa chegar com um roteiro pronto. O psicólogo conduzirá a conversa para entender o que o levou até ali, quais são suas queixas principais e o que você espera do processo. É um espaço de acolhimento, onde o foco é conhecer a sua história, e não te julgar.

  • O Vínculo Terapêutico: O objetivo principal das primeiras sessões é construir confiança. Para que a psicoterapia funcione, você precisa se sentir seguro para retirar a "máscara da superação". Esse vínculo é a base de todo o tratamento e é o que permite que o trabalho de autodescoberta comece de fato.

  • O Contrato Terapêutico: Nesta etapa, o psicólogo explica como funciona o sigilo profissional, a frequência das sessões e as regras de faltas ou cancelamentos. Isso traz segurança para ambos e estabelece o compromisso com a sua saúde mental.

  • A Continuidade e o Alívio: Após o primeiro encontro, é comum sentir um misto de alívio por ter falado e, às vezes, um pouco de cansaço emocional. Isso é normal, pois você começou a mexer em conteúdos que estavam guardados. Com o tempo, as sessões deixam de ser um "esforço" e passam a ser o momento mais aguardado da semana, o seu momento de cuidado exclusivo.

Dar esse primeiro passo é a prova de que você parou de priorizar as expectativas do mundo para priorizar a sua própria vida. A psicoterapia não é apenas para quem tem "problemas graves", mas para qualquer pessoa que deseja viver com mais consciência e menos peso nas costas.

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