Onde o Digital Termina e o Humano Começa



A experiência humana, em sua essência, é uma escalada solitária e profundamente particular, mesmo quando estamos rodeados de pessoas. Quando decidimos subir os degraus de um desafio — seja ele o Pico do Jaraguá ou as montanhas íngremes da própria vida — somos confrontados com os limites do nosso corpo e com a verdade da nossa resistência. A subida nos impõe pausas forçadas; é o momento em que a respiração ofegante e a contração muscular nos obrigam a aceitar que não temos o controle total, mas que possuímos a determinação de recomeçar após cada descanso.

Nesses intervalos entre um degrau e outro, a vida se revela nos detalhes que a correria ignora: o perfume de uma erva silvestre, o toque cortante do vento frio e o silêncio que nos envolve. É nessa solitude que as memórias se tornam pontes. A escalada presente se funde com a lembrança de uma jornada passada, como aquela trilha gelada nos Andes, onde o foco absoluto no ritmo dos passos e a atenção ao terreno inóspito impediam qualquer distração. Naquela época, a meta não era o registro, mas a sobrevivência e a superação de um desafio que se transformou em um teste de caráter.

A verdadeira riqueza de uma experiência não reside na sua grandiosidade física, mas na autenticidade do vínculo que ela cria. Estar no topo de uma montanha, dividindo o calor de um chá e o vislumbre de um horizonte infinito com alguém querido, como um irmão, é um momento que não cabe em uma fotografia. São instantes que se dissipam no tempo, mas que se eternizam na alma justamente por terem sido vividos sem a mediação de uma tela. A relação entre dois irmãos, com todas as suas distâncias e mudanças, encontra sua verdade absoluta naquele silêncio compartilhado, onde o esforço físico se transforma em cumplicidade emocional.

Hoje, vivemos o risco de nos tornarmos coadjuvantes de nossa própria história. O olhar humano, capaz de sentir e se comover, tem sido substituído pela lente digital, que busca o ângulo perfeito para o compartilhamento, mas muitas vezes perde a essência do "aqui e agora". A didática da vida nos ensina que a poesia não precisa de plateia virtual para ser real. Ser protagonista significa ter a coragem de guardar para si a beleza de um momento único, sabendo que a lembrança mais valiosa é aquela que não precisa de internet para ser acessada, pois ela já faz parte de quem nós somos.

A maior jornada não é a que postamos, mas aquela que nos transforma por dentro, degrau por degrau, até que o topo seja apenas o pretexto para termos aprendido a olhar o mundo com os próprios olhos.



Autor: José Hiroshi Taniguti

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