Refém ou Facilitador? Onde se encaixa quem acolhe o(a) paciente em seu lar?
Quem convive com o paciente? Como ele é visto e encarado por aquele que está em constante sofrimento?

Às vezes, a dor e a frustração de uma pessoa são tão intensas que ela passa a "descarregar" suas mágoas e raiva em quem está mais próximo. Se quem recebe essa carga não souber colocar limites, um ciclo perigoso se forma.
1. A Dinâmica: Quem é quem na relação?
Para entender esse processo, usamos dois conceitos da psicanálise:
- O Id (O Paciente): Representa o instinto puro e o desejo de se livrar da dor a qualquer custo. O Id quer prazer imediato e foge de tudo o que dói. Ele age sem pensar nas consequências.
- O Ego (Quem ajuda): Representa a razão, o limite e a realidade.
O problema acontece quando o paciente em sofrimento "usa" a outra pessoa para ser o seu Ego. Ou seja: o paciente se comporta de forma descontrolada (Id) e deixa para o familiar ou parceiro a tarefa difícil de aguentar o peso, colocar ordem no caos e lidar com a realidade.
2. O Erro de quem quer ajudar
Quem ama e quer cuidar, muitas vezes acredita que "aguentar tudo" é uma prova de amor.
- O Alvo: Essa pessoa se sente culpada se impuser limites e acaba se tornando um alvo para as explosões do paciente.
- Síndrome de Estocolmo: Em casos graves, quem cuida começa a sentir uma simpatia profunda pelo seu agressor emocional, justificando os abusos e as ofensas em nome da "doença" do outro.
3. A Fuga da Responsabilidade
Na terapia, esse paciente pode ter dificuldade em melhorar. Por que? Porque ele já tem alguém em casa que "carrega o piano" por ele.
- Inconscientemente, ele pensa: "Eu não preciso mudar, porque o meu 'Ego' (mãe, pai, cônjuge) resolve as consequências dos meus surtos".
- Ele descarrega a tensão no lar para conseguir manter uma "casca" de pessoa equilibrada na rua.
4. A Solução: Limites e Terapia para Ambos
Quando o psicólogo percebe esse ciclo, a orientação é clara: quem está sendo o "saco de pancadas" emocional também precisa de terapia.
- A Resistência: Muitas vezes, quem cuida se nega a ir, dizendo: "O problema é ele, não eu". Mas, ao se recusar a colocar limites, essa pessoa está, sem querer, ajudando a manter o paciente doente.
- O Limite como Cura: Quando quem cuida aprende a dizer "não" e a não aceitar o descontrole alheio, o paciente é forçado a encarar as próprias responsabilidades.
Conclusão: Devolver a Autonomia
Estabelecer limites não é falta de amor; é devolver ao paciente a sua autonomia.
- O paciente precisa aprender a ser o seu próprio "Ego", lidando com suas frustrações sem jogá-las no outro.
- Quem cuida precisa entender que não é responsável pela felicidade do outro, mas sim pela sua própria saúde mental.
Resumo didático: Se você aceita ser o depósito de lixo emocional de alguém, você impede essa pessoa de crescer. O tratamento só avança quando cada um assume o seu papel: o paciente lida com sua dor e o cuidador retoma sua própria vida. USP - Psicologia e Relações | Conselho Federal de Psicologia

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