O "Seguro-Psicologia": Quando a terapia serve para manter, não para mudar













No mundo dos negócios, um seguro serve para amenizar riscos e evitar prejuízos. Na psicologia, existe um fenômeno parecido que podemos chamar de "Seguro-Psicologia". É quando o paciente usa a terapia não para resolver seus traumas, mas apenas como uma garantia para conseguir suportar o dia a dia.
1. O Trauma no "Baú"
Muitos pacientes carregam queixas profundas, vindas de uma infância difícil ou traumas intensos. Em vez de enfrentarem esses problemas para resolvê-los, eles preferem mantê-los guardados em um "baú" interno, com medo do que pode acontecer se decidirem mexer neles.
2. A Metáfora da Academia
Fazer esse tipo de terapia é como pagar a mensalidade de uma academia:
  • O Comportamento: A pessoa paga todo mês, mas só vai quando tem vontade e não segue uma dieta.
  • A Justificativa: Quando questionada, ela diz: "Mas eu pago a academia e me exercito de vez em quando!". Ela valoriza o fato de estar matriculada (o engajamento), mas não se esforça para obter o resultado real (o emagrecimento ou a saúde).
3. A Terapia como Alívio Imediato
Para esse paciente, a sessão serve para descarregar o peso do mundo. Ele busca:
  • Escuta e Acolhimento: Poder falar o que não pode dizer para a mãe, o marido ou o motorista de Uber.
  • Sem Julgamentos: Compartilhar suas "sombras" sem ser criticado.
    Isso ajuda a enfrentar a semana de forma mais leve, mas é um alívio temporário.
4. A Manutenção do Sofrimento
O problema surge quando o paciente se recusa a ouvir as reflexões do psicólogo. Ele quer apenas reafirmar suas queixas e ser consolado.
  • Anos de Tratamento: É por isso que muitos relatam estar em terapia há anos sem sentir evolução. Eles usam a sessão para fazer uma "manutenção semanal" das suas frustrações.
  • Sem Intenção de Resolver: O paciente baixa o nível de angústia ao falar, mas não tem a intenção real de mudar o comportamento que causa essa dor.
5. O Contrato Invisível
Enquanto um seguro de carro garante tranquilidade em caso de acidente, o seguro-psicologia garante que a angústia, a ansiedade e as fobias fiquem em um nível suportável para que a pessoa continue funcionando na sociedade.
Conclusão:
Muitas pessoas adotaram esse estilo de vida. Algumas têm consciência de que usam a terapia apenas como um suporte para não desmoronar; outras preferem não ler as "letras miúdas" desse contrato e continuam acreditando que estão tentando mudar, quando, na verdade, estão apenas tentando sobreviver.
Resumo didático: O "seguro-psicologia" não busca a cura, busca a estabilidade. É o uso da terapia para manter a dor sob controle, em vez de eliminá-la.

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