O Desequilíbrio nos Relacionamentos: Por que a conta não fecha?

É muito comum receber pessoas no consultório que sofrem porque sentem que entregam muito mais do que recebem em seus relacionamentos. Elas não têm dificuldade de se expressar; o problema é a falta de correspondência.
1. A Matemática do Investimento Afetivo
Imagine que um relacionamento é uma conta conjunta onde ambos devem depositar afeto.
- O Cenário: Uma pessoa decide investir 100% de sua energia diária, enquanto o parceiro investe apenas 20%.
- O Conflito: No início, o "Amor" parece justificar tudo. Mas, na prática, essa conta gera uma frustração enorme para quem dá mais. A "magia" dos filmes de Hollywood não sobrevive à rotina quando o investimento é desigual.
2. A Estratégia da "Mesma Moeda"
Para ajudar o paciente a refletir, muitas vezes sugere-se uma técnica racional: oferecer ao outro exatamente o que ele oferece. Se ele entrega 20%, você também entrega 20%.
- O que acontece? Em relações casuais, isso costuma resolver o incômodo.
- O obstáculo: Algumas pessoas têm uma personalidade que só sabe se envolver plenamente (os 100%) e não conseguem "se diminuir" para caber no pouco que o outro oferece. Da mesma forma, quem dá pouco muitas vezes não quer (ou não consegue) dar mais.
3. Quando o Individualismo Vence o Casal
Quando nenhum dos dois é flexível, o caminho costuma ser: Brigas → Falta de Comunicação → Ruptura.
- O "Umbigo" como barreira: A comunicação falha porque as pessoas não estão ouvindo o parceiro de verdade. Elas estão presas ao modo como se moldaram para sobreviver ao mundo. Não há espaço para o "nós", apenas para o "eu".
- Correntes Invisíveis: Existem casais que não se separam, mas vivem "desbotados" e apáticos, presos por rotinas ou medos, mesmo que a relação já tenha causado sintomas físicos (dores, ansiedade, palpitações).
4. A Ilusão de Mudar o Outro
Muitas pessoas permanecem em relações desequilibradas acreditando que podem mudar o parceiro ou provar que sua forma de amar é a "certa". Elas criam uma bolha aceitável, onde focam nas poucas coisas boas para ignorar o peso enorme do que é negativo.
Conclusão: O Desafio da Entrega
Relacionamentos desequilibrados são, no fundo, um choque de individualismos. Por isso, a terapia de casal nem sempre funciona: se as duas pessoas não estiverem dispostas a olhar menos para o próprio umbigo e mais para a construção conjunta, a conta nunca fechará.
O sucesso de uma relação não está em "ganhar" a discussão, mas na coragem de investir e na sabedoria de saber quando o outro está disposto a investir também. No final das contas, o amor real exige que sejamos capazes de sair de nós mesmos para encontrar o outro.

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