A Tirania do Desejo: O Preço Invisível de Fazer o que se Quer
A liberdade humana é um campo vasto, onde quase tudo é permitido desde que o limite do respeito ao próximo e à própria integridade seja preservado. No entanto, o grande dilema que lota os consultórios de psicologia não é a falta de liberdade, mas a incapacidade de lidar com a conta que chega após nossas escolhas. Vivemos sob a ilusão de que o desejo, por ser genuíno, deveria ser suficiente para garantir um resultado feliz. Mas a realidade é impiedosa: toda ação gera um impacto global que raramente calculamos. Quando alguém planeja uma surpresa ou uma mudança de país sem considerar o outro, está operando em um narcisismo benevolente; a intenção pode até ser "boa", mas a execução ignora que o outro não é um cenário, mas um ser com vontades próprias. O conflito surge porque buscamos a gratificação imediata do nosso impulso, esquecendo que o mundo não é um espelho das nossas expectativas.
Essa falta de visão sistêmica se estende para a forma como tentamos curar nossas angústias internas com soluções externas. A pessoa que busca preencher o vazio da alma com uma viagem luxuosa após ver o brilho falso das redes sociais está, na verdade, tentando apagar um incêndio interno com gasolina. Ela viaja o mundo, mas leva consigo o mesmo olhar enfadonho, descobrindo que a geografia muda, mas a dor permanece. O mesmo vale para as nossas excentricidades e estilos de vida: podemos viver como quisermos entre quatro paredes, mas a maturidade reside em entender que essa liberdade exige uma responsabilidade proporcional. Ter dez animais ou um hábito incomum é um direito, mas a higienização e o cuidado são o preço ético que pagamos para que nossa liberdade não se torne a opressão do vizinho.
No fundo, tudo se trata da lei da semeadura e da colheita no campo da ética e da psicologia. Ser livre não é apenas poder fazer o que se quer, mas ser capaz de sustentar as consequências do que se fez sem se vitimizar. O paciente sofre porque quer o bônus da escolha, mas tenta negociar o ônus do resultado. Entender que nossas ações reverberam para além do nosso umbigo é o primeiro passo para uma vida menos angustiada. A verdadeira plenitude não nasce de um "fazer o que der na telha", mas de uma ação consciente que mede o impacto no outro e em si mesmo, transformando a liberdade em uma construção harmônica em vez de um impulso cego.



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