Para Além dos Conselhos: Por que o Psicólogo não diz o que você deve fazer
Ao final das primeiras sessões, é muito comum que os pacientes peçam um conselho sobre como devem agir na semana, como organizar a rotina ou como se comportar diante de um problema. Embora algumas abordagens, como a Comportamental, ofereçam orientações mais diretas sobre hábitos, a psicologia profunda trabalha de outra forma. A verdade é que todo conselho vem carregado com as experiências de quem o dá, e não de quem o recebe. É muito mais fácil dizer o que o outro deve fazer do que aplicar isso na própria vida. Quando alguém escreve um livro de autoajuda, ele está relatando o que funcionou para a história única dele, o que raramente se encaixa perfeitamente na sua realidade.
Na vida cotidiana, muitas vezes buscamos conselhos de forma inconsciente para encontrar um "cúmplice". Criamos o que chamamos de "fala estruturada": uma narrativa que, sem percebermos, distorce um pouco os fatos para ganhar a atenção e o apoio emocional de quem nos ouve. Esse apoio traz um conforto imediato e alivia a angústia por um momento, mas, como não resolve a raiz do problema, o efeito passa rápido. Logo, sentimos a necessidade de procurar outra pessoa para desabafar e pedir um novo conselho, criando um ciclo vicioso de dependência emocional que não gera mudança real.
Na sessão de psicoterapia, o objetivo é romper esse ciclo de repetições. O papel do psicólogo não é ser esse cúmplice que passa a mão na cabeça, mas sim alguém que ajuda a organizar a fala do paciente, algo que ele não consegue fazer sozinho devido ao sofrimento. O profissional trabalha para dissipar essa "fala manifesto" (aquilo que é dito apenas na superfície) e entender o que está escondido por trás das queixas. Para isso, o terapeuta precisa estar isento de seus próprios valores e crenças, ouvindo com sensibilidade para entender a condição psicológica do outro sem julgamentos.
A grande diferença da terapia é que o "conselho" final é construído pelo próprio paciente. O psicólogo atua como um facilitador para que a pessoa se torne autora de suas próprias ações. Quando você descobre o caminho por conta própria, a mudança é sólida e duradoura, pois nasce da sua própria compreensão e não de uma regra imposta por outra pessoa. A psicoterapia não te dá o peixe, mas te ajuda a entender por que você sente fome e como você pode caminhar com as próprias pernas, livre das armadilhas que você mesmo criou.
Para saber se você está em busca de um "cúmplice" em vez de uma solução, observe a sua reação ao ouvir algo diferente do que esperava. Se, ao receber um conselho que te desafia ou aponta sua responsabilidade, você sente raiva ou logo descarta a opinião daquela pessoa para procurar outra que "te entenda melhor", você provavelmente não está buscando mudança, mas sim validação para continuar onde está. Esse hábito de colecionar opiniões favoráveis funciona como uma anestesia: ele acalma a dor da dúvida, mas deixa o problema crescer nas sombras, tornando você dependente do olhar alheio para se sentir seguro.
É justamente por isso que a ajuda psicológica é insubstituível. Enquanto amigos e familiares estão emocionalmente envolvidos e tendem a dizer o que você quer ouvir para não te ver sofrer, o psicólogo tem o compromisso técnico com a sua autonomia. Buscar psicoterapia é admitir que os conselhos do cotidiano já não são suficientes para lidar com a complexidade da sua mente. É um investimento na sua capacidade de decidir por si mesmo, sem precisar da aprovação constante de terceiros. No consultório, você não encontra um "palpiteiro de plantão", mas um ambiente ético projetado para que você pare de fugir de si mesmo através das falas dos outros.
A necessidade de ajuda profissional surge quando percebemos que estamos cansados de repetir os mesmos desabafos sem sair do lugar. A terapia te retira do papel de vítima das circunstâncias e te coloca no lugar de protagonista da sua própria história. Se você sente que está sobrecarregado, perdido entre tantas opiniões ou se percebe que sua vida está travada em ciclos de angústia, não espere o esgotamento total para agir. Procurar um psicólogo é o maior gesto de respeito que você pode ter com a sua trajetória, garantindo que o seu futuro seja guiado pelas suas próprias descobertas e não por conselhos vazios que o tempo logo apaga.
Você percebe que gasta muita energia tentando convencer as pessoas de que o seu lado da história é o único certo? Gostaria de entender como a terapia pode te ajudar a transformar essa necessidade de defesa em paz interior?


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