O Iceberg Emocional: Por que Situações Pontuais Despertam Dores Profundas?
É muito comum que alguém procure ajuda psicológica trazendo um problema que parece ter começo, meio e fim, como o cansaço de acompanhar um pai doente no hospital. À primeira vista, a pessoa acredita que seu mal-estar é apenas físico, fruto das noites mal dormidas ou da rotina hospitalar. No entanto, o que intriga o paciente é a intensidade da sua reação: ele não entende por que sente um desespero avassalador, taquicardia ou insônia, já que a relação com o pai sempre foi distante e respeitosa. Ele enxerga a situação como um fato isolado, mas a psicologia nos mostra que esse evento é apenas a ponta de um iceberg.
O que acontece é que a nossa mente funciona em camadas. Quando vivemos situações mal resolvidas ao longo da vida, temos o hábito de "jogar o lixo emocional no armário" e trancar a porta, acreditando que, se não olharmos para aquilo, o problema deixará de existir. Contudo, o tempo passa e esses conteúdos escondidos começam a agir como cupins que corroem a estrutura por dentro. O momento de cuidar do pai na UTI funciona como um gatilho que destranca essa porta. Estar ali, em silêncio e proximidade forçada, faz com que memórias, carências e mágoas antigas — que estavam submersas no "iceberg" — comecem a flutuar e a se manifestar através do corpo na forma de crises de ansiedade.
Além disso, muitas vezes agimos no modo automático sem entender as verdadeiras intenções por trás dos nossos atos. Alguém que não recebeu afeto ou atenção na infância pode se tornar um adulto excessivamente generoso, que faz tudo pelos outros sem limites. Esse altruísmo exagerado é, na verdade, uma tentativa inconsciente de finalmente ser visto e amado. O problema é que, quando o outro não retribui essa dedicação com a gratidão esperada, a pessoa entra em colapso. Ela acredita que está sofrendo pelo cansaço do dia a dia, mas a verdadeira dor vem lá debaixo da água, de uma base de gelo composta por vazios emocionais que nunca foram preenchidos. Entender que o sintoma atual é apenas um sinal de algo muito maior é o primeiro passo para parar de apenas "apagar incêndios" e começar a tratar a verdadeira origem do sofrimento.


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